Canoas da Lagoa de Extremoz: arqueologia, idade e memória

Conheça as pesquisas sobre as canoas da Lagoa de Extremoz, suas datações e como buscar informações sobre o acervo no Museu Câmara Cascudo.

6 min de leitura
Águas e margem arborizada da Lagoa de Extremoz, com estrutura de madeira coberta por palha, em fotografia de 2018
Lagoa de Extremoz em fotografia de 2018, como contexto da história das canoas. Foto: Frankie Marcone/MTur, via Wikimedia Commons. Recortada e convertida para WebP.

A Lagoa de Extremoz guarda uma história de navegação anterior à colonização portuguesa. Canoas encontradas em suas águas permitiram investigar como pessoas de outros tempos construíam embarcações, aproveitavam a madeira e circulavam naquele ambiente. Uma dessas peças foi associada, por datação, a períodos entre os séculos XIII e XIV.

Para conhecer essa história, vale acompanhar três caminhos: a forma das embarcações, os resultados das pesquisas e o trabalho dos museus. Eles ajudam a entender o que foi possível descobrir e por que uma canoa antiga precisa de cuidados muito diferentes daqueles dedicados a um barco em uso.

O que é uma canoa monóxila

Monóxila é a canoa feita a partir de um único tronco escavado. Um estudo publicado em 2015 na revista Clio Arqueológica examinou a peça identificada como Extremoz 04, com 5,36 metros de comprimento. O casco, parcialmente preservado, tinha fundo levemente achatado e formas arredondadas.

Os pesquisadores interpretaram suas características como adequadas à navegação em águas protegidas, como lagoas e rios, para atividades como pesca e pequenos deslocamentos. É uma interpretação construída a partir do objeto, sem transformar a embarcação em prova de viagens em mar aberto.

Observar uma canoa assim também muda a pergunta sobre sua fabricação. Como escolher um tronco capaz de receber pessoas e carga? Quanto material retirar sem enfraquecer as paredes? Como equilibrar capacidade e estabilidade? Essas perguntas tornam mais visível o conhecimento técnico envolvido num objeto que, visto rapidamente, pode parecer apenas madeira escavada.

Como ler a idade atribuída à canoa

A análise da Extremoz 04 apresentou resultado de 700 ± 30 anos de radiocarbono antes do presente. No estudo, a calibração indicou os intervalos de 1290 a 1320 e de 1350 a 1385 da era cristã, no nível de probabilidade de 68% utilizado pelos autores.

Esses números não devem ser lidos como uma data exata de construção. Também não basta subtrair 700 do ano em que estamos. Na convenção do radiocarbono, “antes do presente” usa 1950 como referência.

A explicação técnica da Beta Analytic sobre calibração mostra por que existe essa diferença. A concentração de carbono 14 na atmosfera variou ao longo do tempo. Para aproximar o resultado laboratorial do calendário histórico, os especialistas usam curvas de calibração. O resultado costuma ser apresentado como uma ou mais faixas de anos, acompanhado de um nível de probabilidade.

Ao encontrar uma notícia que resume tudo como “canoa de 700 anos”, procure saber qual peça foi analisada e quais intervalos a pesquisa informou. No caso de Extremoz, essa leitura evita misturar embarcações de épocas diferentes encontradas na mesma lagoa.

As embarcações encontradas em 2013 contam outra parte da história

Uma segunda pesquisa, publicada por Marcelo Lins e Carlos Rios em 2016, estudou as canoas Extremoz 01 e 02. Elas foram encontradas pelo pescador Pedro Luiz da Silva em março de 2013, durante uma baixa do nível da água, e levadas à Fundação Aldeia Guajiru.

A Extremoz 01 media 5,41 metros; a 02, 3,97 metros. As datações calibradas apresentadas no artigo indicaram 1645–1665 para a primeira e 1665–1685 ou 1730–1805 para a segunda. Bancos e características das extremidades foram interpretados pelos autores como sinais de adaptações às atividades do período colonial, incluindo transporte.

O artigo da revista Fumdhamentos registra, porém, uma perda: na conclusão publicada em 2016, os autores informaram que essas duas canoas já haviam sido destruídas pela exposição às intempéries e pela falta de conservação adequada.

Esse registro não descreve uma exposição atual. Ele explica por que fotografias, medidas, desenhos e análises feitos durante a pesquisa se tornaram tão importantes para estudar aquelas peças.

Onde procurar informações sobre o acervo

O Museu Câmara Cascudo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal, é uma referência para continuar essa investigação. Em sua programação de 2021, a instituição promoveu uma conversa sobre cerâmica Tupi e canoas indígenas, reunindo pesquisadores de diferentes universidades.

A apresentação do encontro no site do museu informa a guarda de uma canoa encontrada na Lagoa de Extremoz em 1997 e associa a peça ao intervalo de 1290 a 1385. O encontro foi anunciado como uma atividade de divulgação do acervo arqueológico, permitindo aproximar a pesquisa do público.

Estar sob a guarda de um museu não significa estar permanentemente em uma sala aberta à visitação. Antes de sair de Extremoz com o objetivo específico de ver a canoa, consulte a equipe sobre a exposição disponível e as possibilidades de conhecer esse tema. Assim, o passeio pode ser organizado com base no atendimento atual.

Como organizar uma visita ao Museu Câmara Cascudo

O MCC fica na Avenida Hermes da Fonseca, 1398, no Tirol, em Natal. A orientação oficial de visitação informa atendimento de terça a sexta-feira, das 8h30 às 12h e das 13h às 16h30. A entrada é permitida até meia hora antes de cada fechamento.

Visitas individuais e familiares dispensam agendamento. Para confirmar o funcionamento no dia escolhido e perguntar sobre as canoas, use o WhatsApp (84) 99229-6619 ou o e-mail comunica@mcc.ufrn.br.

Grupos escolares e acadêmicos devem procurar o Setor Educativo com pelo menos dez dias úteis de antecedência. O atendimento é destinado a grupos de dez a quarenta pessoas por horário e depende de disponibilidade e confirmação. Os contatos são educativo@mcc.ufrn.br e WhatsApp (84) 99229-6618. Informe já no primeiro contato se a turma precisa de atendimento especializado ou recursos de acessibilidade.

Uma atividade para aproximar a pesquisa da história de Extremoz

Para uma turma escolar ou um grupo interessado na memória local, uma boa preparação é montar uma ficha de cada embarcação estudada: identificação, comprimento, período indicado pela datação e destino conhecido. A comparação revela que “as canoas da lagoa” não formam um conjunto de peças idênticas, feitas na mesma época.

Outra proposta é separar, num desenho comentado, o que foi observado no casco e o que os pesquisadores interpretaram sobre seu uso. Medir uma peça é diferente de explicar quem a conduziu ou o que transportava. Manter essa distinção permite aprender com a arqueologia sem preencher as lacunas com histórias inventadas.

A lagoa passa, então, a ser vista também como parte da memória de Extremoz: um lugar onde objetos de madeira preservaram pistas sobre técnicas, circulação e trabalho humano. Conhecer essas pistas depende tanto da pesquisa quanto do cuidado com os materiais que chegam até nós.