Relatório da Fundaj mostra impactos da ação humana que agravam mudanças climáticas e alteram paisagem da Caatinga

Perda de vegetação nativa, aumento de temperatura e desaparecimento de mais de mil açudes. Os últimos 30 anos foram marcados por um intenso processo de degradação do meio ambiente, com transformações drásticas no Semiárido nordestino.

Na Caatinga, bioma situado em uma área de 844 mil km² onde vivem mais de 22 milhões de pessoas, a ação humana leva a um cenário de rápida redução na cobertura vegetal e nas superfícies aquáticas, o que contribui para o prolongamento dos ciclos de seca.

Essas são algumas das conclusões extraídas da pesquisa “CLIMAP – Mudanças Climáticas no Bioma Caatinga: Sensoriamento Remoto, Meio Ambiente e Políticas Públicas”, do Centro Integrado de Estudos Georreferenciados para a Pesquisa Social (Cieg) da Fundaj, cujo relatório final foi publicado em novembro.

No estudo, foram analisadas imagens de satélite feitas ao longo de três décadas em três sub-regiões, chamadas de “áreas-piloto”: o Oeste baiano, a Região Geográfica Imediata de Petrolina (que abrange outros cinco municípios de Pernambuco) e o Semiárido alagoano.

Entre as constatações da pesquisa, estão a perda de cobertura vegetal em áreas de conservação do Oeste baiano e o aumento do albedo, energia solar que é refletida de volta à atmosfera, no Sertão pernambucano.

Além disso, mais de 1.300 açudes desapareceram no interior de Alagoas. “Surgiram outros açudes, mas isso chama atenção porque é uma região de alta vulnerabilidade social, e provavelmente este é um cenário que se repete nos outros estados nordestinos”, afirma Neison Freire, que foi o coordenador do projeto na Fundaj e atualmente é pesquisador do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Além do especialista, o projeto contou com a participação dos professores Alexandrina Saldanha (Fundaj), Débora Coelho (Universidade Federal de Campina Grande), Débora Cavalcanti (Universidade Federal de Alagoas), Admilson da Penha Pacheco (Universidade Federal de Pernambuco) e Odair Barbosa de Moraes (Universidade Federal de Alagoas).

Áreas-piloto

Em cada sub-região analisada, foi verificada a relação entre as ações antrópicas e as mudanças na paisagem e no clima do bioma.

No Oeste baiano, os estudos tiveram como foco duas unidades de conservação e proteção integral: o Refúgio da Vida Silvestre da Ararinha-Azul e o Parque Nacional do Boqueirão da Onça.

Apesar de ser uma área de pouca densidade demográfica, os pesquisadores encontraram um avanço do desmatamento e dos conflitos com a fauna para o uso da terra, incluindo a extinção da ararinha-azul no local, que foi repovoado a partir de doações dos governos da Alemanha e do Catar. Também houve perda de vegetação.

Na Região Geográfica Imediata de Petrolina, que inclui ainda os municípios pernambucanos de Afrânio, Dormentes, Santa Maria da Boa Vista, Orocó e Lagoa Grande, o aumento do albedo ocorreu em espaços naturais convertidos em locais explorados para irrigação.

“Essas áreas de agricultura irrigada têm contribuído para o aquecimento global”, constata o professor Neison Freire. Já no Semiárido alagoano, foram observados os impactos no espelho d’água, com o desaparecimento de açudes.

A publicação do relatório coincide com a realização da Conferência das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas (COP26), que teve início no dia 31 de outubro e segue até 12 de novembro, na cidade de Glasgow, na Escócia.

“Torna-se, portanto, um referencial importante nas estratégias de combate e mitigação às mudanças climáticas no Brasil, em especial para as políticas públicas no bioma da Caatinga”, ressalta o pesquisador.

Tendências

Para o futuro, em relação às mudanças climáticas, o estudo reforça a tendência de intensificação da estiagem e prolongamento dos ciclos de seca no bioma da Caatinga.

Essas transformações no meio ambiente também impactam no Litoral, onde as projeções indicam a ocorrência de tempestades e eventos catastróficos mais severos.

“Se uma inundação ocorre em poucos dias e destrói rapidamente, no caso das secas e estiagens no Sertão, é um desastre ‘natural’ mais prolongado”, analisa o professor Neison Freire.

“O quadro é grave e nossa pesquisa mostra que é preciso que o marco regulatório ou jurídico, que já existe, seja mais efetivo nessas áreas como também são necessárias ações de conservação, investindo em ciência, pesquisa e tecnologia no Semiárido”.