EXTREMOZ: UMA HISTÓRIA SILENCIADA

Imagem: acervo pessoal (nada como pedalar pela nossa história)

Apesar da sua rica e apaixonante história, Extremoz, ainda não teve o devido reconhecimento dentro da produção historiográfica potiguar. Assim, bem sabem, os que se aventuram em tentar juntar os “pedaços” de sua fragmentada história. Como sabemos, a busca incessante pelas fontes é um dos principais atributos dos historiadores. Nesse ponto, as fontes acadêmicas e historiográficas disponíveis para consulta e difusão são escassas e exigem paciência e habilidade para o pesquisador iniciante. Clássicos, livros, artigos, pesquisas sólidas, produções acadêmicas, conferências, arquivos avulsos, documentos manuscritos, arquivo histórico, legislações diversas, documentários, produções de caráter audiovisual, entre outras tantas possibilidades de, não apenas, preservar a memória, mas, sobretudo, dar vida a essa história e fazer com que esse patrimônio cultural e histórico esteja, de fato, integrado ao nosso cotidiano. Fazendo, assim, que o nosso povo tenha orgulho de sua história.

Na clássica historiografia do Rio Grande do Norte, a saber, autores como Tavares de Lyra, Rocha Pombo e Câmara Cascudo, apresentam de forma rica e detalhada o papel da então Capitania do Rio Grande ao longo do período colonial, imperial e republicado. Episódios como a chegada dos jesuítas, presença dos holandeses, massacres de Cunhaù e Uruaçu, guerra dos bárbaros, resistência indígena, escravidão, independência, interventorias, ditadura, eleições e redemocratização podem ser pensados e trabalhados à luz de diversos eventos, personagens, documentos, correspondências oficiais, entre outros tantos elementos históricos, antropológicos, sociológicos, arqueológicos, etnográficos e religiosos circunscritos ao longo da história de Extremoz. Seja considerando os aspectos legais e históricos que envolveram seu aldeamento, a própria construção de sua igreja matriz, a presença e o papel dos holandeses, os supostos tesouros escondidos, a fundação da primeira vila em 1760, o espolio dos jesuítas, os “famosos” sonhos de Joaquim Honório, ou ainda, suas muitas lendas presentes em obras como Câmara Cascudo e Gumercindo Saraiva, mas não só.

Extremoz conta uma história que parece ter sido silenciada com o passar dos anos. Espécie de abandono secular. Como dizia D. José Pereira Alves (1928) sobre a solidão histórica de Extremoz. Limitando-se a memória de alguns e que ainda aguarda o momento para ser “descoberta” e ter a atenção historiográfica devida.  Alguns poucos, por iniciativa própria e, em alguns casos, de forma superficial, lutam – como podem – para preservar e tentar manter alguma memória viva. Trabalhos historiográficos que fazem referência a Extremoz são poucos, dentre os quais podemos destacar os trabalhos publicados por; Marcgrave (1643), Golijath (1665), Pizarro e Araújo (1822), Costa Pereira (1834) e Milliiet Adolple (1845). Bem verdade que para melhor entender o contexto etnográfico acerca de hábitos e costumes no Nordeste e na capitania dos séculos XVII e XIX autores como Henry Koster (1942) juntamente com Pierre Moreau e Roulox Baro (1979) são fundamentais, sobretudo, na compreensão de aspectos relacionados aos nativos, detalhadamente descritos em seus relatos. Mais recentemente, destacamos; Câmara Cascudo (1940), Gumercindo Saraiva (1984), Sylvia Porto Alegre (1994), Dionice Silva (1997), Olavo Medeiros (1998), Julie Cavignac (2003), Fátima Martins Lopes (2005) e Simone Souza (2020). Obras que apresentam elementos importantes e fundamentais, mas ainda de forma insuficiente, deixando um campo aberto para a produção da pesquisa acadêmica e de interesse historiográfico sobre a antiga Guajiru.

Em relação as supostas riquezas existentes na igreja, Cascudo (1940) não acredita que havia. Afirma que “Extremoz nunca poderia ter riqueza. O aldeamento era diminuto. A terra pobre. A capitania paupérrima. (…) Não há lembrança de igreja rica”.  Então, como explicar a existências de tantos relatos de tesouros perdidos e escondidos, se não por meio de lendas? Apenas uma provocação histórica a ser trabalhada pelos que estiverem dispostos. Muitos elementos históricos carecem de maior atenção e exprimem a possibilidade de problematizarmos diversas questões acerca da importância historiográfica de Extremoz. Um exemplo simbólico e trabalhado de forma detalhada na obra de Paulo Herôncio (1937) é o tema dos massacres ocorridos no ano de 1645 em Cunhaú e Uruaçu liderados pelo alemão Jacob Rabbi. Um personagem central na trama que envolve a presença holandesa no Rio Grande em meados do século XVII. Segundo o historiador Olavo Medeiros, Rabbi, chegou a viver com uma nativa, chamada Domingas, num sítio de sua propriedade, chamado “Ceará”. Ainda, segundo o historiador “o sítio corresponde atualmente à localização denominada Araça, ribeira do Ceará-Mirim entre Massagana e Estivas, e mesmo ao norte da cidade de Extremoz”. Como esse, existem muitos outros episódios intrigantes e que aguardam para serem, não apenas narrados, mas, fundamentalmente, serem, descobertos, trabalhados e problematizados por estudiosos, pesquisadores e historiadores dispostos, assim, talvez, possamos amenizar esse silencio e solidão presentes há muito tempo na história de Extremoz.